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Cabral comprou voto para sediar Olimpíadas 2016 no Rio

05 SET 2017
05 de Setembro de 2017
A cooperação internacional entre os órgãos de persecução do Brasil, da França, da Antígua e Barbuda, dos Estados Unidos e do Reino Unido permitiu que viesse a público os bastidores da escolha do Rio de Janeiro como sede dos jogos olímpicos de 2016. Vasta documentação e provas robustas revelaram que a organização criminosa de Cabral comprou o voto do presidente da Federação Internacional de Atletismo, Lamine Diack, por 2 milhões de dólares.
Diante disso, o Ministério Público Federal do Brasil (MPF/RJ), a Polícia Federal e o Ministério Público Financeiro Francês deflagram nesta terça-feira (05/08) a Operação Unfair Play, com a expedição de mandados de prisão preventiva contra o empresário Arthur Soares, conhecido como “Rei Arthur”, e a sua sócia Eliane Pereira Cavalcante.
Por quebra telemática de e-mails trocados entre os sócios, o MPF descobriu que o empresário pretendia se mudar para o Uruguai. Além dessas prisões, também foi autorizado pela Justiça a condução do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arhtur Nuzman, para oitiva junto à Polícia Federal. Como há suspeitas que o presidente do COB tenha nacionalidade russa, ele está proibido de ausentar-se do país e deverá entregar todos os passaportes que possuir.
Também foram expedidos mandados de busca e apreensão nas casas dos evolvidos, na sede do COB, do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos 2016 e nas empresas AS Patrimonial, Pulse Participações, Laborvida Laboratórios Farmacêuticos, LHS Barra Empreendimentos Imobiliários, Grupo Prol S.A., NZ Palestras, Conferências e Estuados Eireli. Além disso, foram bloqueados diversos bens dos envolvidos, incluindo apartamentos em área nobre do Rio de Janeiro, carros de luxo e aeronaves.
Para dar continuidade aos trabalhos, o MPF obteve na medida cautelar autorização para realizar pedido de cooperação jurídica internacional com as Ilhas Virgens Britânicas, França e Estados Unidos, a fim de rastrear os recursos que o representado Arthur Soares possui em nome de interpostas pessoas nesses países.
Organização criminosa internacional
As fronteiras internacionais não limitaram a atuação da organização criminosa de Cabral. Para os procuradores da República da força-tarefa Lava Jato/RJ, “trata-se de um esquema altamente sofisticado, que agia internacionalmente com desenvoltura e uma engenhosa e complexa relação corrupta”. Prova disso é que, para alcançar o atual estágio da investigação, o MPF teve que realizar pedidos de cooperação jurídica internacional com nada menos que quatro países diferentes: Antígua e Barbuda, França, Estados Unidos e Reino Unido.
Durante as investigações, o Ministério Público Francês colheu substancioso material para demonstrar que houve compra de votos para escolha da sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Um dos votos foi comprado de Lamine Diack, então presidente da Federação Internacional de Atletismo e então membro do Comitê Olímpico Internacional, por meio de seu filho, Papa Massata Diack.
O pagamento de 2 milhões de dólares pelos votos veio da empresa Matlock Capital Group, do empresário “Rei Arthur”. “Ele nada mais fez do que repassar a propina que pagaria a Sérgio Cabral diretamente para o senegalês, em troca dos votos pela escolha da cidade-sede das Olimpíadas de 2016. Somadas as investigações realizadas pelos Ministérios Públicos Brasileiro e Francês, temos o ciclo completo de como ocorreu a venda de voto para escolha da sede dos Jogos Olímpicos de 2016, que teve como vencedora a cidade do Rio de Janeiro”, destacam os procuradores da força-tarefa Leonardo Cardoso de Freitas, José Augusto Simões Vagos, Eduardo Ribeiro Gomes El Hage, Rodrigo Timóteo da Costa e Silva, Rafael Barretto dos Santos, Sérgio Luiz Pinel Dias, Fabiana Schneider e Marisa Varotto Ferrari.
Tido como um dos maiores contratados pelo Estado do Rio de Janeiro, “Rei Arthur” tinha interesse evidente e direto na realização desse grande evento esportivo: “vultosas quantias de investimentos da União e a abertura de uma imensa janela de oportunidades para exponenciar os contratos não apenas com o Estado, mas também com o Município e com o Comitê Olímpico Rio 2016”, detalha o MPF.
“Neste grande esquema ganha-ganha, Arthur Soares é mais um dos integrantes dessa grande organização criminosa. O esquema criminoso completa-se com a ponta faltante: a atuação do Comitê Olímpico Brasileiro, por atuação de Carlos Arthur Nuzman, figura central nas tratativas para escolha da sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Sem a presença e negociação entabulada por ele, a engenhosa e complexa relação corrupta aqui narrada poderia não alcançar o sucesso que efetivamente alcançou. Nuzman foi o agente responsável por unir pontas interessadas, fazer os contatos e azeitar as relações para organizar o mecanismo do repasse de propinas de Cabral diretamente a membros africanos do COI, o que foi efetivamente feito por meio de Arthur Soares”, explicam os procuradores.
No anúncio da cidade-sede de 2016, em Copenhague, estavam Cabral e Nuzman. “É natural – e notório – que eles estivessem no evento. A presença destoante, e que conecta todos os elos do esquema criminoso, é do empresário Arthur Soares”, pontuam.
Com a realização dos Jogos Olímpicos de 2016, o grupo político, capitaneado por Cabral, teve ampla possibilidade de capitalizar-se politicamente e receber milhões em investimentos para realização de obras públicas. Diversas dessas obras (Arco Metropolitano, Maracanã e Linha 4 do Metrô), anunciadas como “legado” das Olimpíadas de 2016, renderam milhões em pagamento de vantagens indevidas (propina) ao ex-governador e demais membros da organização criminosa.


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